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MovSaúde Editorial • 21 Apr 2026

Cirurgião Pedro Botelho: "A prevenção não pode esperar pelos 50 anos"

Cirurgião geral Pedro Botelho Cirurgião geral Pedro Botelho

Durante muito tempo, a ideia instalada foi simples: só a partir dos 50 anos é que valia a pena pensar na saúde do intestino. Hoje, essa ideia já não se sustenta. As principais referências internacionais em saúde — incluindo a Direção-Geral de Saúde norte-americana e a Sociedade Americana de Gastroenterologia — reviram as suas recomendações e são claras: o rastreio do cancro do cólon e reto (CCR) deve iniciar-se aos 45 anos, em doentes sem fatores de risco acrescido para esta doença* (ver abaixo). Mas o que justifica esta mudança? 

Uma doença silenciosa que está a rejuvenescer

O cancro colorretal é a segunda causa de morte por cancro em Portugal. O seu maior perigo está precisamente no silêncio: nas fases iniciais, não avisa — não dói, não sangra, não dá sinais. É simplesmente invisível.

A decisão de recuar a idade de rastreio assenta em dados que não podem ser ignorados: a incidência deste cancro em adultos entre os 40 e os 49 anos cresceu quase 15% nas últimas duas décadas. Hoje, estima-se que cerca de 10,5% dos novos casos surjam em pessoas com menos de 50 anos. Antecipar o rastreio significa, em termos concretos, salvar vidas que até há bem pouco tempo não eram protegidas a tempo. Acresce que um estudo divulgado este ano revelou algo ainda mais preocupante: de todos os cancros diagnosticados em doentes com menos de 50 anos, o cancro colorectal é aquele cuja mortalidade mais tem aumentado — superando o cancro da mama e do pulmão. É, por outras palavras, o cancro com maior mortalidade quando aparece antes dos 50.

A diferença entre 90% e 10%

O rastreio não existe apenas para detetar cancro — existe, acima de tudo, para o impedir de aparecer. A maioria destes tumores tem origem em pequenas lesões chamadas pólipos ou adenomas. Quando identificados e removidos durante uma colonoscopia, o cancro pode nunca chegar a desenvolver-se (lesões pré-malignas) — ou ser tratado de forma definitiva nesse mesmo momento, se a lesão for totalmente excisada – e evitar a necessidade de uma cirurgia major com resseção intestinal.

Os números são inequívocos:

  • Diagnosticado no Estádio I, a probabilidade de sobrevivência aos cinco anos é superior a 90%.
  • Diagnosticado no Estádio IV, essa probabilidade desce para cerca de 10%.

Fazer o rastreio aos 45 anos é, literalmente, escolher estar do lado dos 90%.

Rastrear hoje é mais simples do que pensa

O medo do exame ainda afasta muitas pessoas. Mas a realidade é bem diferente do que o imaginário coletivo sugere, é importante desmistificar este processo:

  1. Colonoscopia (o exame de referência): É o método mais completo - permite observar todo o cólon e remover pólipos de imediato – permite diagnosticar e tratar (se detectado em fase precoce>). No Serviço Nacional de Saúde, o exame pode ser realizado com sedação ou anestesia, sem qualquer dor ou desconforto. Com resultado normal, na maioria dos casos só será necessário repetir passados 10 anos.
  2. Teste de Pesquisa de Sangue Oculto nas Fezes (FIT): Para quem prefere uma alternativa não invasiva, o teste imunoquímico pode ser feito em casa, sem dieta especial, com uma simples amostra de fezes. Deve ser repetido anualmente. Se positivo, o doente deverá realizar colonoscopia para descobrir a razão de ter sangue nas fezes.
Não espere pelos sintomas

O rastreio é dirigido a pessoas que não apresentem sintomas. Aguardar por sangue nas fezes, dores abdominais ou alterações do trânsito intestinal pode significar chegar tarde demais.

Se tem 45 anos ou mais - ou se tem familiares diretos que tiveram este cancro, o que pode exigir rastreio ainda mais cedo -, fale com o seu médico. Rastrear é um ato de cuidado: consigo próprio e com quem lhe é próximo. Aos 45 anos ainda há tudo a ganhar. Não deixe que uma doença prevenível escreva um capítulo que não tinha de existir.

*Fatores de risco aumentado para CCR:

História Pessoal

  • Pólipos adenomatosos prévios (especialmente múltiplos ou de grande dimensão)
  • Cancro colorretal prévio
  • Doença inflamatória intestinal crónica (Doença de Crohn ou Colite Ulcerosa)

História Familiar

  • Familiar de 1.º grau (pais, irmãos, filhos) com CCR ou adenomas avançados, especialmente se diagnosticados antes dos 60 anos
  • Dois ou mais familiares de 1.º grau com CCR, independentemente da idade

Síndromes Hereditárias

  • Polipose Adenomatosa Familiar (PAF) e suas variantes
  • Síndrome de Lynch (Cancro Colorretal Hereditário Sem Polipose — HNPCC)
  • Outras síndromes poliposas mais raras (Peutz-Jeghers, polipose serreada, etc.)

Outros Fatores

  • Radioterapia abdominal ou pélvica prévia (ex: linfoma de Hodgkin na infância)
  • Acromegalia
  • Algumas fontes incluem também diabetes tipo 2 e obesidade severa, embora o impacto no protocolo de rastreio seja menos consensual

Bibliografia

USPSTF. Colorectal Cancer: Screening. JAMA, 2021. doi:10.1001/jama.2021.6238 

Siegel RL, et al. Colorectal cancer statistics, 2023. CA: A Cancer Journal for Clinicians, 2023. 

Willauer AN, et al. Clinical and molecular characterization of early-onset colorectal cancer. Cancer, 2019. 

Wolf AMD, et al. Colorectal cancer screening for average-risk adults: 2018 guideline update from the American Cancer Society. CA Cancer J Clin, 2018. 

DGS Portugal. Programa Nacional para as Doenças Oncológicas, relatórios anuais disponíveis em dgs.pt