Cirurgião geral Pedro Botelho
Durante muito tempo, a ideia instalada foi simples: só a partir dos 50 anos é que valia a pena pensar na saúde do intestino. Hoje, essa ideia já não se sustenta. As principais referências internacionais em saúde — incluindo a Direção-Geral de Saúde norte-americana e a Sociedade Americana de Gastroenterologia — reviram as suas recomendações e são claras: o rastreio do cancro do cólon e reto (CCR) deve iniciar-se aos 45 anos, em doentes sem fatores de risco acrescido para esta doença* (ver abaixo). Mas o que justifica esta mudança?
Uma doença silenciosa que está a rejuvenescer
O cancro colorretal é a segunda causa de morte por cancro em Portugal. O seu maior perigo está precisamente no silêncio: nas fases iniciais, não avisa — não dói, não sangra, não dá sinais. É simplesmente invisível.
A decisão de recuar a idade de rastreio assenta em dados que não podem ser ignorados: a incidência deste cancro em adultos entre os 40 e os 49 anos cresceu quase 15% nas últimas duas décadas. Hoje, estima-se que cerca de 10,5% dos novos casos surjam em pessoas com menos de 50 anos. Antecipar o rastreio significa, em termos concretos, salvar vidas que até há bem pouco tempo não eram protegidas a tempo. Acresce que um estudo divulgado este ano revelou algo ainda mais preocupante: de todos os cancros diagnosticados em doentes com menos de 50 anos, o cancro colorectal é aquele cuja mortalidade mais tem aumentado — superando o cancro da mama e do pulmão. É, por outras palavras, o cancro com maior mortalidade quando aparece antes dos 50.
A diferença entre 90% e 10%
O rastreio não existe apenas para detetar cancro — existe, acima de tudo, para o impedir de aparecer. A maioria destes tumores tem origem em pequenas lesões chamadas pólipos ou adenomas. Quando identificados e removidos durante uma colonoscopia, o cancro pode nunca chegar a desenvolver-se (lesões pré-malignas) — ou ser tratado de forma definitiva nesse mesmo momento, se a lesão for totalmente excisada – e evitar a necessidade de uma cirurgia major com resseção intestinal.
Os números são inequívocos:
- Diagnosticado no Estádio I, a probabilidade de sobrevivência aos cinco anos é superior a 90%.
- Diagnosticado no Estádio IV, essa probabilidade desce para cerca de 10%.
Fazer o rastreio aos 45 anos é, literalmente, escolher estar do lado dos 90%.
Rastrear hoje é mais simples do que pensa
O medo do exame ainda afasta muitas pessoas. Mas a realidade é bem diferente do que o imaginário coletivo sugere, é importante desmistificar este processo:
- Colonoscopia (o exame de referência): É o método mais completo - permite observar todo o cólon e remover pólipos de imediato – permite diagnosticar e tratar (se detectado em fase precoce>). No Serviço Nacional de Saúde, o exame pode ser realizado com sedação ou anestesia, sem qualquer dor ou desconforto. Com resultado normal, na maioria dos casos só será necessário repetir passados 10 anos.
- Teste de Pesquisa de Sangue Oculto nas Fezes (FIT): Para quem prefere uma alternativa não invasiva, o teste imunoquímico pode ser feito em casa, sem dieta especial, com uma simples amostra de fezes. Deve ser repetido anualmente. Se positivo, o doente deverá realizar colonoscopia para descobrir a razão de ter sangue nas fezes.
Não espere pelos sintomas
O rastreio é dirigido a pessoas que não apresentem sintomas. Aguardar por sangue nas fezes, dores abdominais ou alterações do trânsito intestinal pode significar chegar tarde demais.
Se tem 45 anos ou mais - ou se tem familiares diretos que tiveram este cancro, o que pode exigir rastreio ainda mais cedo -, fale com o seu médico. Rastrear é um ato de cuidado: consigo próprio e com quem lhe é próximo. Aos 45 anos ainda há tudo a ganhar. Não deixe que uma doença prevenível escreva um capítulo que não tinha de existir.
*Fatores de risco aumentado para CCR:
História Pessoal
- Pólipos adenomatosos prévios (especialmente múltiplos ou de grande dimensão)
- Cancro colorretal prévio
- Doença inflamatória intestinal crónica (Doença de Crohn ou Colite Ulcerosa)
História Familiar
- Familiar de 1.º grau (pais, irmãos, filhos) com CCR ou adenomas avançados, especialmente se diagnosticados antes dos 60 anos
- Dois ou mais familiares de 1.º grau com CCR, independentemente da idade
Síndromes Hereditárias
- Polipose Adenomatosa Familiar (PAF) e suas variantes
- Síndrome de Lynch (Cancro Colorretal Hereditário Sem Polipose — HNPCC)
- Outras síndromes poliposas mais raras (Peutz-Jeghers, polipose serreada, etc.)
Outros Fatores
- Radioterapia abdominal ou pélvica prévia (ex: linfoma de Hodgkin na infância)
- Acromegalia
- Algumas fontes incluem também diabetes tipo 2 e obesidade severa, embora o impacto no protocolo de rastreio seja menos consensual
Bibliografia
USPSTF. Colorectal Cancer: Screening. JAMA, 2021. doi:10.1001/jama.2021.6238
Siegel RL, et al. Colorectal cancer statistics, 2023. CA: A Cancer Journal for Clinicians, 2023.
Willauer AN, et al. Clinical and molecular characterization of early-onset colorectal cancer. Cancer, 2019.
Wolf AMD, et al. Colorectal cancer screening for average-risk adults: 2018 guideline update from the American Cancer Society. CA Cancer J Clin, 2018.
DGS Portugal. Programa Nacional para as Doenças Oncológicas, relatórios anuais disponíveis em dgs.pt