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MovSaúde Editorial • 20 May 2026

Carla Ferreira: “Andamos tão acelerados que muitas vezes aprendemos a ignorar sinais do corpo”

Carla Ferreira, 41 anos Carla Ferreira, 41 anos

Tinha 38 anos quando recebeu o diagnóstico de cancro colorretal. Aos 41, Carla Ferreira, optometrista, partilha com a MovSaúde um testemunho aberto e honesto sobre a doença. Os primeiros sinais, a importância de escutar o corpo, a vida como sobrevivente ao cancro e os tabus e estigmas que ainda persistem. 

Que idade tinha quando foi diagnosticada?

38 anos 

Quais foram os primeiros sinais ou sintomas? 

O primeiro sinal de que algo não estaria bem foi o aparecimento de sangue vivo nas fezes. Antes disso, já vivia com um cansaço constante e intenso. Na altura, tinha até um diagnóstico de burnout e estava medicada, por isso, atribuí muitos dos sintomas ao stress e ao desgaste emocional.

Também tinha algum inchaço abdominal, mas fui desvalorizando esses sinais. Achava que era apenas uma consequência da idade, da aproximação aos 40 anos talvez.

O que a fez decidir procurar aconselhamento médico? Se pudesse voltar atrás, teria procurado ajuda médica mais cedo? 

Sempre fui uma pessoa muito atenta ao meu corpo, fazia consultas e exames com regularidade. 

Lembro-me claramente de na altura em que fui diagnosticada com burnout dizer que sentia que havia “algo errado” comigo, uma sensação difícil de explicar. No entanto, estávamos no período pós-pandemia, marcado por muito desgaste emocional e físico, por isso, o diagnóstico acabou por fazer sentido.

Só quando comecei a notar sangue vivo persistente é que percebi que podia ser algo mais grave. 

Houve algum sintoma que desvalorizou no início e que hoje não ignoraria?

Hoje, depois de ter passado por todo este processo e de saber aquilo que sei agora, é muito mais fácil identificar certos sinais como sintomas de alerta. Mas, na altura, sinceramente, nunca me passou pela cabeça que pudesse ter um cancro colorretal.

Sempre pratiquei exercício físico, nunca fumei e tinha um estilo de vida considerado saudável. Associava este tipo de doença a pessoas mais velhas ou com outros fatores de risco, não a alguém da minha idade. E a verdade é que nem os próprios médicos colocaram essa hipótese numa fase inicial.

O sintoma que hoje jamais ignoraria é o sangue nas fezes, mesmo que apareça apenas ocasionalmente. Também daria mais atenção ao cansaço persistente e à sensação constante de que algo no meu corpo não estava bem, mesmo quando os exames iniciais ou as explicações pareciam apontar para outras causas.

Que sinais acha importante que as pessoas conheçam melhor?

Acho que vivemos numa sociedade que, de certa forma, normaliza o mal-estar constante e o cansaço. Andamos todos tão acelerados que muitas vezes aprendemos a ignorar sinais do corpo e a justificar tudo com stress, excesso de trabalho ou falta de descanso. E, felizmente, na maioria das vezes não se trata de uma doença oncológica. Mas também é importante perceber que o cancro colorretal está a surgir cada vez mais em pessoas jovens, sem os fatores de risco “tradicionais”.

No caso específico do cancro colorretal, diria às pessoas algo muito simples: olhem para o vosso cocó. Parece uma frase quase caricata, mas é mesmo importante. Alterações persistentes no trânsito intestinal, sangue nas fezes, mudança na forma das fezes, dor abdominal, sensação de evacuação incompleta ou cansaço inexplicável não devem ser ignorados.

Já tinha feito algum rastreio antes do diagnóstico?

Sim. Como referi anteriormente, sempre fui uma pessoa muito cuidadosa com a saúde e fazia consultas e exames de rotina regularmente. No final de 2019, tinha 35 anos e, como já ia fazer uma endoscopia, decidi aproveitar para realizar também uma colonoscopia.

O meu tumor teve um crescimento muito agressivo em apenas cerca de três anos, o que mostra que o cancro colorretal pode surgir e evoluir rapidamente mesmo em pessoas jovens e aparentemente saudáveis.

Hoje consigo dizer, sem exagero, que provavelmente estou viva porque sempre tive o hábito de olhar para o meu corpo e, neste caso específico, para o meu cocó. Foi isso que me fez perceber que algo estava diferente e insistir em procurar respostas.

Como descreve o momento em que recebeu o diagnóstico?

O momento do diagnóstico ficou gravado de uma forma muito intensa, porque eu literalmente vi o tumor.  Fiz uma retossigmoidoscopia - uma espécie de “mini colonoscopia” focada apenas no reto e sem necessidade de anestesia - e, durante o exame, conseguia ver no monitor exatamente o que a médica estava a ver.

Lembro-me perfeitamente daquele momento. Acho que, no fundo, percebi logo mas não conseguia acreditar. Depois veio a semana de espera pela biópsia, que pareceu interminável. No dia 19 de julho de 2023, ouvi as palavras “cancro colorretal”.

É muito difícil explicar o impacto desse instante. Senti como se o meu mundo estivesse a girar a uma velocidade completamente diferente da de toda a gente à minha volta. Quase como se tivesse sido arrancada da realidade que conhecia até ali.

Sente que a sua vida mudou muito desde o diagnóstico? De que forma?

Costumo brincar que, para mim, existe o “AC” e o “DC”: antes do cancro e depois do cancro. 

Fiquei sem energia, espontaneidade, planos para o futuro, fertilidade e até uma certa sensação de segurança em relação ao próprio corpo.

E depois existem as sequelas dos tratamentos, que muitas vezes quase ninguém vê ou fala. No meu caso, vivo com síndrome de LARS, uma consequência frequente das cirurgias ao reto, mas ainda muito pouco discutida. Impacta imenso o meu dia-a-dia, a minha relação com o corpo, a alimentação, a vida social e até a liberdade de sair de casa sem pensar constantemente onde está a casa de banho mais próxima.

Acho importante falar disto porque existe uma ideia muito simplista de que “o importante é sobreviver”. E claro que sobreviver é fundamental. Mas também é preciso falar sobre a qualidade de vida depois do cancro e sobre tudo aquilo que os sobreviventes continuam a enfrentar muito depois dos tratamentos terminarem.

Antes do seu diagnóstico, que ideias tinha sobre o cancro colorretal?

Antes do meu diagnóstico, sabia muito pouco sobre cancro colorretal, admito.

O meu avô materno faleceu com cancro colorretal, mas eu era bastante jovem nessa altura. E lembro-me de associar a doença ao perfil que ele tinha: idade mais avançada, excesso de peso, consumo frequente de enchidos e álcool. Como eu não tinha nenhum desses fatores de risco, admito a presunção e nunca sequer considerei essa hipótese para mim.

Na minha cabeça, outros tipos de cancro poderiam eventualmente estar “no radar”, como o cancro da mama ou da pele. Mas o cancro colorretal, sinceramente, não fazia parte das minhas preocupações. E acho que isso mostra também como ainda existe pouca consciencialização para o facto de esta doença poder surgir em pessoas jovens, ativas e aparentemente saudáveis.

Se pudesse dar um conselho a uma pessoa que acabou de receber um diagnóstico, qual seria?

Acima de tudo diria: respira.

No momento em que ouvimos a palavra “cancro”, tudo parece desabar ao mesmo tempo. Por isso, o primeiro passo é mesmo esse: parar, respirar e tentar ganhar um pouco de chão naquele momento tão avassalador.

Diria também para confiarem em si e no próprio corpo. Apesar de tudo o que estamos a viver, o corpo continua a ser a nossa maior ferramenta e merece ser ouvido e respeitado ao longo de todo o processo. 

O que gostaria de ter sabido antes do diagnóstico?

Gostava de ter confiado mais na sensação de que algo não estava bem no meu corpo. Hoje percebo que ouvir o nosso corpo faz mesmo diferença.

Considera que o cancro colorretal é ainda um tabu? Se sim, porque acha que isso acontece? Que medidas poderiam ser tomadas para haver uma mudança?

Sem dúvida que o cancro colorretal ainda é um tabu, e confesso que nem sempre consigo perceber completamente porquê.

Quando fui diagnosticada, procurei informação e senti que havia muito pouca ou, pelo menos, não estava facilmente acessível ou claramente explicada. Isso fez-me sentir bastante sozinha num momento em que já tudo era, por si só, muito difícil.

O que é ainda mais contraditório é que estamos a falar de um dos cancros mais diagnosticados em Portugal. Em 2022 tinham sido diagnosticados mais de 10 mil casos. Apesar disso, continua a ser pouco falado publicamente, sobretudo em comparação com outros tipos de cancro.

Acho que este tabu está muito ligado ao facto de envolver o intestino, as fezes e tudo o que é considerado “constrangedor”.

Para mudar isto, é fundamental normalizar a conversa. Falar mais abertamente sobre sintomas, rastreios e experiências reais, em linguagem simples e sem vergonha. 

Gostaria de deixar uma mensagem a alguém que está a ler este testemunho?

Se há uma mensagem que eu gostava mesmo de deixar é esta: escutem o vosso corpo e levem-no a sério.

Não quero com isto gerar medo, porque a maior parte dos sintomas que sentimos no dia-a-dia não são cancro. Mas também não devemos normalizar tudo como stress, cansaço ou “coisas da idade”, sobretudo quando os sinais persistem ou são diferentes do habitual.

Façam perguntas, insistam quando sentem que algo não está bem e não tenham receio de pedir uma segunda opinião. E falem sobre isto. Falar salva vidas.